Jacqueline Heluy
Agência Assembléia (grifos nosso)
As escolas brasileiras não estão preparadas para enfrentar e prevenir as
práticas de bullying entre crianças e adolescentes. O alerta foi feito nesta
sexta-feira, 15, durante o I Seminário Internacional sobre o Bullying Escolar e
Cultura de Paz, realizado na Assembleia Legislativa do Maranhão.
O evento reuniu educadores do Maranhão e de vários estados, pesquisadores
nacionais e internacionais, representantes do governo estadual e municipal e
estudantes. Presente a deputada Eliziane Gama (PPS), autora da lei estadual de
combate à prática de bullying nas escolas.
No Maranhão oito escolas de cinco municípios estão desenvolvendo projeto de
combate e prevenção à prática de bullying a partir de uma ação da organização
Plan Brasil, com o apoio das respectivas Secretarias de Educação Municipal. O
município de Codó é o primeiro do Maranhão a ter uma lei municipal de combate
ao bullying.
Em São Mateus do Maranhão na turma
de Serviço Social da UNITINS foi feito um trabalho de conclusão de curso TCC,
baseado nesse tema, e que poderia ser
incorporado como ação pela Secretaria de Educação do Município. Utilizando os acadêmicos
como parceiro, assim como o conselho tutelar, professores e outros
profissionais do município.
De acordo com pesquisadora Cleo Fante, idealizadora do programa antibullying
“Educar para a Paz”, o projeto nas escolas maranhenses tem atuado com 3.700
estudantes dos municípios de Codó, Timbiras, Peritoró, São Luís e São José de
Ribamar. Os pesquisadores comprovaram que 11% deste total de alunos,
equivalente a 407 estudantes, estão vivenciando bullying dentro das suas
escolas, dos quais 3% são agressores.
PRÁTICAS AGRESSIVAS
Foram identificados vários tipos de práticas agressivas nas escolas, que vão
do xingamento, apelidos à violência física e constrangimento às vítimas, tais
como jogá-las em cestos de lixo e até em vasos sanitários.
O projeto desenvolvido no Maranhão envolve a adoção de estratégias, tais
como a criação do grupo “Alunos Solidários”, responsável pela socialização e
aprendizado dos colegas que se sentem excluídos e cujo rendimento escolar é
menor. Cleo Fante informou que tais estratégias conseguiram reduzir 30% dos
casos.
Outro ponto positivo criado nas escolas que integram o projeto é o sistema
de denúncias em que as práticas de bullying podem ser denunciadas mantendo o
anonimato de quem as denuncia. “As vítimas têm medo de denunciar por sofrer
retaliações” informou.
O tema “Bullying no espaço escolar” foi abordado no seminário pelo
pesquisador Alexandre Ventura, de Portugal, que chamou atenção para o efeito
devastador que este tipo de violência causa nas vítimas até à fase adulta.
Segundo ele, os malefícios atingem a todos os participantes, vítimas, agressores
e testemunhas. Ele disse que enfrentar o bullying é um desafio difícil que
exige dedicação e investimento na escola.
ATITUDE COVARDE
Alexandre Ventura informou que o bullying é uma atitude covarde, intencional
e de difícil defesa, mas os professores têm que saber identificar a prática,
que muitas das vezes ocorre dentro da própria sala de aula. Ele destacou
algumas características apresentadas pelas vítimas, como medo, insegurança,
notas baixas, rejeição à escola, choro, depressão. Algumas vítimas chegam ao
extremo de tendências assassinas e suicidas. A evasão escolar é uma das
conseqüências.
Ventura declarou que um programa de combate ao bullying só terá efeito se
for incluído no contexto de cada escola como uma ação persistente e que envolva
toda a comunidade - família, alunos, coordenadores e professores.
“As conseqüências psicossociais do bullying” foi outro tema abordado no
seminário, desta vez pela psicóloga Sonia Makaron, de São Paulo, que chamou
atenção para a necessidade de professores e pais não transformarem o bullying
em brincadeira de criança. São atos de agressão física e psicológica de caráter
intencional, repetitivo e sem motivação aparente. Causam dor e humilhação.
Segundo ela, as seqüelas serão para toda a vida com um efeito devastador.
IMPLICAÇÕES JURÍDICAS
O procurador do Estado de Minas Gerais, João Viana da Cunha, destacou
durante o seminário as implicações jurídicas do bullying, alertando sobre a
necessidade das escolas terem regras internas claras e objetivas sobre o que
não deve ser feito pelos alunos para efeito de punições futuras.
O advogado ressaltou que os educadores precisam perder o medo de se
posicionarem de forma séria e que no próprio Estatuto da Criança e do
Adolescente já há enquadramento para o bullying, Ele informa que o ECA define
de forma clara as medidas que devem ser aplicadas às crianças e adolescentes
que praticam atos de indisciplina e infração.
“O bullying ofende a dignidade da pessoa humana e o direito ao respeito à
criança”, declarou Alexandre Ventura. Segundo ele, a escola é corresponsável
nos casos que ocorrem dentro da instituição e aquela escola que se omite está
prestando um desserviço à educação.
DESAFIO
Durante o seminário foram abordados também os temas “Cyberbullying e
Violência Sexual Facilitada pela Tecnologia da Informação e Comunicação”,
exposto pelo engenheiro maranhense Luiz Rossi; “Os aspectos do bullying na Vida
de Crianças e Adolescentes” e “A Cultura de Paz no Enfrentamento do Bullying
Escolar”, pelo pedagogo Carlos Aguerra, da Espanha. Todos os temas foram
debatidos pela platéia com os palestrantes, encerrando com um painel sobre
“Pedagogia da Paz”.
Os participantes saíram do seminário com um desafio lançado pelos
palestrantes: cobrar das autoridades investimentos na educação, com a
qualificação dos educadores e a formação de grupos multiprofissionais dentro
das escolas para ajudar neste trabalho. Segundo os expositores, as escolas
sozinhas não dão conta de solucionar o bullying.
Fonte:
http://www.jornalpequeno.com.br/2011/4/15/seminario-na-assembleia-debate-bullying-nas-escolas-152572.htm